“Não foi a chuva, foi a gestão”: Prefeitura culpa a natureza, mas o caos em Poços tem responsável
A Prefeitura diz que foi a maior chuva do ano. Mas chuva forte em Poços não é surpresa, é previsão. O que faltou foi prevenção, fiscalização e planejamento.
Opinião · Editorial do Pensa Poços
A Prefeitura de Poços de Caldas já tem a sua explicação para o caos deste domingo (25): foi “a maior chuva do ano”. Segundo a nota oficial, a ETA 5 do DMAE registrou 100 milímetros em 24 horas, mais de 40 milímetros caíram entre 6h30 e 8h, e o Ribeirão Poços de Caldas chegou a 3,78 metros. A mesma nota termina dizendo que “o trabalho preventivo realizado ao longo do ano” foi “fundamental”.
Com todo respeito aos servidores que passaram a manhã na rua, e eles merecem: a culpa não é da natureza.
Chuva forte não é surpresa. É previsão.
Poços de Caldas fica numa serra, dentro de uma antiga caldeira vulcânica, cortada por ribeirões. Chove muito aqui todo verão. As normais do INMET mostram mais de 1.600 milímetros por ano, e só janeiro passa de 290 milímetros. Pancadas de 40 milímetros em uma hora são o retrato do verão poços-caldense, não um evento de outro planeta.
E tem um detalhe que a nota não diz: o período chuvoso mal começou. Se a primeira chuva forte da temporada já colocou a Avenida João Pinheiro debaixo d’água, alagou o Parque Antônio Molinari e derrubou muro sobre a rua, o que vai acontecer em dezembro e janeiro?

Obra de drenagem não se projeta para a chuva média. Se projeta para a chuva forte, aquela que volta a cada 10, 25 ou 50 anos, como manda a boa engenharia. Se a primeira chuva forte transborda a avenida justamente no trecho que está sendo reformado, o problema não está no céu. Está no projeto, na execução ou na fiscalização.
Veja as fotos e o vídeo do caos causado pela chuva em Poços de Caldas.
A própria Prefeitura entregou a prova
Leia com atenção a nota oficial. Na Avenida Vereador Edmundo Cardillo, a Prefeitura precisou acionar a construtora de um novo loteamento para desobstruir o sistema de drenagem. Ou seja: um loteamento em obra estava com a drenagem entupida, em plena chegada da temporada de chuvas, e isso só foi resolvido depois que a água subiu.
Isso não é natureza. É falta de fiscalização. É falta de prevenção.
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Uma cidade que não planeja além do mandato
O alagamento é só o sintoma mais visível de um problema maior: Poços de Caldas não tem um plano de longo prazo que o morador conheça, acompanhe e cobre.
- A demolição do Monotrilho, símbolo de obra mal planejada, segue sem data. A própria Prefeitura admitiu à Câmara que ainda não tem prazo.
- O pontilhão da Rua São Paulo tem como laudo mais recente um documento de 2017, que já apontava corrosão nas armaduras. A Câmara voltou a cobrar respostas.
- A Câmara aprovou uma moção cobrando o prefeito porque os repasses a instituições assistenciais estavam atrasados havia três meses. A Apae, que atende quase mil pessoas, disse temer prejuízo aos atendimentos.
Quando uma Prefeitura atrasa repasses a quem cuida de crianças e pessoas com deficiência, não dá para dizer que as contas vão bem. E quem anda pelo centro sente a cidade largada: calçadas esburacadas, praças maltratadas e cada vez mais pessoas vivendo nas ruas, sem uma política que resolva o problema de verdade.
O mundo planeja para 50 anos. Poços planeja até a próxima eleição.
Cidades sérias tratam a chuva como certeza, não como desculpa.
- Copenhague, na Dinamarca, sofreu uma tempestade histórica em 2011 e, no ano seguinte, aprovou um plano de enfrentamento de chuvas extremas com centenas de obras programadas para as décadas seguintes.
- Tóquio, no Japão, construiu um gigantesco canal subterrâneo para desviar a água das cheias e proteger a região metropolitana.
- Roterdã, na Holanda, criou praças que viram reservatórios de água da chuva quando o temporal chega.
Ninguém está pedindo que Poços vire Tóquio. O que se espera é o básico: um plano de drenagem com metas, prazos e dinheiro garantido, que atravesse governos; equipes técnicas no comando das obras; limpeza de bocas de lobo antes da chuva, e não depois; fiscalização dos loteamentos; e transparência sobre o que está sendo feito.
A culpa é de quem administra
A chuva não escolhe a cidade. Mas a cidade escolhe como se preparar para ela. Quando a resposta oficial ao caos é culpar “a maior chuva do ano”, a mensagem é clara: ninguém vai assumir responsabilidade.
Poços de Caldas merece mais do que desculpas meteorológicas. Merece gestão técnica, planejamento de longo prazo e prevenção de verdade. Porque a próxima chuva forte já está a caminho. E ela não vai pedir licença.
O espaço do Pensa Poços está aberto para a Prefeitura de Poços de Caldas responder.
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